Associação Médica Brasileira World Federation of Associations of Pediatric Surgeons Asociación Iberoamericana de Cirugía Pediátrica

Dra. Fernanda Lage é mundialmente reconhecida por seu trabalho

A premiada, que é professora da Ufac e a única cirurgiã pediátrica a trabalhar no Acre, dá atenção especial à correção de malformações congênitas, e, ainda assim, é responsável por realizar mais de 80% das cirurgias de baixa complexidade no estado.

A Dra. Fernanda Lage Lima Dantas foi escolhida entre cirurgiões do mundo todo para receber o prêmio Baxiram S. and Kankuben B. Gelot Community Surgeons Travel Award for the year 2018, de Cirurgião da Comunidade, e participar do Congresso Clínico do American College of Surgeon (ACS), em outubro, em Boston (EUA), quando ocorrerá a cerimônia para a entrega do prêmio. O Comitê de Relações Internacionais do ACS reconheceu a elevada qualidade técnica da Cirurgia Pediátrica que é desenvolvida no Acre, bem como o comprometimento e dedicação da cirurgiã ao ensino da especialidade, na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Acre (Ufac), onde é professora.

Trata-se de uma distinção oferecida aos cirurgiões que trabalham em áreas remotas do mundo, com limitados recursos, e se empenham para garantir a alta qualidade da prática cirúrgica e a melhoria do acesso ao cuidado cirúrgico para a população da sua comunidade. A Dra. Fernanda Lage declara: “O prêmio significa o reconhecimento do valor do meu trabalho como um todo na Amazônia, da luta e dedicação para conseguir realizar atendimento de boa qualidade mesmo em condições tão adversas”. E também está associado ao ensino em cirurgia, com multiplicação do conhecimento. O Community Surgeon Travel Award consiste em um convite para participar do Congresso Clinico da ACS, com inscrição gratuita no evento e nos cursos, ajuda de custo para passagens e hospedagem, e para realizar visita ao serviço do interesse do premiado nos EUA.

A Cirurgia Pediátrica brasileira, reunida na CIPE, tem motivos de sobra para se orgulhar da Dra. Fernanda.

Rio de Janeiro-Rio Branco
Nascida em 1975, a carioca Fernanda Lage graduou-se em medicina em 1998, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Entre 1999 e 2001, realizou residência em Cirurgia Geral na Universidade Estadual do estado (Uerj) e, de 2002 a 2004, a de Cirurgia Pediátrica no Instituto Fernandes Figueiras (IFF), também na capital fluminense.

Em março de 2005, após ter se casado com o colega Thor Oliveira Dantas, também médico e natural do Acre, foi para Rio Branco. Nessa capital, como no restante do estado, não atuava nenhum cirurgião pediátrico. Ela conta que seu marido já estava com a carreira sedimentada, exercendo a função de diretor no Pronto-socorro local, e lá ela poderia preencher a lacuna, dedicando-se a sua especialidade. “Foi um grande desafio estabelecer um serviço de Cirurgia Pediátrica do nada: treinar pediatras e equipe de enfermagem, preparar as condições para cuidar do pós-operatório dos recém-nascidos. Foi muito difícil, mas também muito gratificante ver o resultado”, declara.

Malformações
O Fernandes Figueiras era referência em malformações congênitas e, por isso, ela declara ter tido bom treinamento nesse campo, o que lhe foi muito útil: “Em casos de apendicite e trauma, por exemplo, o cirurgião geral ainda consegue ajudar, mas nas malformações congênitas somente o treinamento específico do cirurgião pediátrico possibilita a condução adequada do tratamento do paciente.” Como a Dra. Fernanda não conseguia dar conta de toda a demanda (e ainda continua como única especialista do estado), acabou por concentrar seu trabalho na Maternidade, Hospital da Criança e Hospital das Clínicas, se afastando do pronto-socorro.

“Realizo muita cirurgia neonatal: hérnia diafragmática, atresia de esôfago, doença de Hirschsprung, atresias intestinais, obstrução duodenal, linfangiomas, gastrosquise e onfalocele, estenose hipertrófica do piloro, alguns cistos de colédoco, mas raramente opero malformação pulmonar. Temos grande incidência de anomalias anorretais aqui no Acre, por isso, no ano passado, busquei me aprofundar um pouco mais em um estágio com o Dr. Alberto Peña e a Dra. Andrea Bischoff.” Ela relata que também realiza outros procedimentos de menor porte, como fundoplicatura e gastrostomia em neuropata, hérnias, orquidopexias, cisto tireoglosso, malformações branquiais, entre outros. Também se dedica à operação de malformações urológicas, principalmente pieloplastia e vesicostomia, mas não às cirurgias de hipospadia. “E, como não trabalho no pronto-socorro, também não faço trauma nem cirurgia oncológica; se se tratar de malformação, os pacientes são transferidos para o Hospital da Criança.” A médica realiza mais de 80% das cirurgias de baixa complexidade em crianças; os demais casos são tratados por um cirurgião geral.

Dificuldades não faltam
Segundo ela, as limitações decorrentes da ausência de outros cirurgiões pediátricos no estado procuram ser superadas com a cooperação de outros profissionais disponíveis. “No ato operatório sou auxiliada pelo residente de Cirurgia Geral. Em casos mais complicados, peço ajuda ao urologista, cirurgião torácico e hepático, conforme o diagnóstico. E nos cuidados pós-operatórios desses pacientes conto com a colaboração dos residentes de Pediatria.”

Quanto às condições de trabalho, a Dra. Fernanda declara que falta material para fazer vídeo e endoscopia urológica, que os grampeadores não estão facilmente disponíveis e os aparelhos de anestesia não são os ideais para operar recém-nascidos. “Depois que o Brasil entrou na crise começaram a faltar alguns materiais, como folha de silicone para silo e telas, entre outros. Mas, no geral, disponho do material básico para resolver as malformações com adequada evolução e bom resultado. Temos uma boa UTI neonatal e também UTI pediátrica, NPT, cateteres PIC Line, diálise, e não faltam nem os fios necessários nem a maioria dos cateteres.”

A importância do prêmio
Ela afirma que o prêmio vem como uma injeção de ânimo, necessário para enfrentar as dificuldades de se trabalhar no Brasil, no Serviço Único de Saúde (SUS). “Pela falta de tecnologia disponível muitas vezes me sentia estagnada na carreira. Esse prêmio valoriza o lado positivo desse pioneirismo e, quem sabe, pode me trazer novas possibilidades para melhorar as condições de trabalho e aumentar as probabilidades de receber colegas para operar as crianças aqui.” Ela gostaria de poder formalizar parcerias para implantar um ambulatório multidisciplinar para as crianças com malformações colorretais e urogenitais, trazer mais humanização para o atendimento, criando um espaço agradável para as crianças das cirurgias ambulatoriais, e conseguir material para vídeo e endoscopia urológica.

O prêmio também prevê estágio de três semanas, para o qual a Dra. Fernanda se mostra especialmente animada. “É um grande sonho conhecer o Children’s Hospital de Boston, onde trabalharam os Drs. Willian Ladd e Robert Gross, pais da Cirurgia Pediátrica nos EUA. No ano passado fui ao Children’s Hospital do Colorado para um estágio observacional, extremamente válido para reciclagem em vários temas.”

Nesse novo estágio, ela espera aprender sobre as mais recentes condutas em diversas patologias, assim como estabelecer relações profissionais com os médicos dos EUA, com a perspectiva de recebê-los em visitas humanitárias no Acre.

A seu ver, essa distinção não valoriza somente a profissional; também traz benefícios para a Cirurgia Pediátrica do Brasil, uma vez que “promove a ideia do especialista que trabalha com amor, que luta pelos seus pacientes, que supera as adversidades para realizar um bom trabalho. E ainda mostra que temos bons profissionais e boa formação no país.”

Ensino no Acre
A Faculdade de Medicina da Ufac oferece a disciplina de Cirurgia Pediátrica, dentro do currículo de Cirurgia II e de Pediatria e também uma disciplina optativa dessa especialidade.

A Dra. Fernanda foi coordenadora da disciplina de Pediatria por cinco anos. Seu bom relacionamento com o corpo discente, seu empenho em mostrar a importância da Cirurgia Pediátrica e a coordenação de um grupo de pesquisas com os alunos sobre malformações congênitas vem possibilitando que estes concluam o curso com bom conhecimento das afecções cirúrgicas infantis. “Como tenho vários ex-alunos trabalhando aqui, dou ênfase no ensino para detectar as patologias, prestar os cuidados iniciais e encaminhar para mim os casos cirúrgicos, antes que se compliquem.”

Lamentavelmente, não há residência em Cirurgia Pediátrica no Acre nem perspectivas de criação. “Sozinha, não consigo nem pensar nessa ideia”, comenta a cirurgiã, que hoje, sobrecarregada, divide seu tempo entre a prática cirúrgica pediátrica e a vida acadêmica.

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Foto: Junior Aguiar/A Gazeta do Acre

Foto: Junior Aguiar/A Gazeta do Acre