Associação Médica Brasileira World Federation of Associations of Pediatric Surgeons Asociación Iberoamericana de Cirugía Pediátrica

Jornada da Santa Casa homenageia Dr. Mastroti

Além da homenagem, o evento, que se desenvolveu no final de junho, trouxe atualizações em diversos campos e apontou caminhos para a Cirurgia Pediátrica na Santa Casa e como especialidade.

Nos dias 29 e 30 de junho, foi realizada a I Jornada de ex-Residentes do Serviço de Cirurgia Pediátrica da Santa Casa de São Paulo. A jornada levou o nome do Prof. Dr. Roberto Antonio Mastroti, que foi chefe do Serviço de Cirurgia Infantil da instituição e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

Na ocasião, o Dr. Mastroti foi homenageado pelos ex-residentes da especialidade presentes. Ele declarou: “Estou feliz de poder rever amigos, residentes que me trouxeram muitas alegrias.” Com longa trajetória dedicada à Cirurgia Pediátrica, o Dr. Mastroti teve como orientador em seu doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) ninguém mais do que o Dr. Virgílio Alves de Carvalho Pinto, patrono da especialidade no Brasil. Ao relembrar de sua entrada na Santa Casa, destacou ser aquele o primeiro ano da residência em Cirurgia Geral e Cirurgia Pediátrica da instituição – respectivamente, com o Dr. Emílio Athié e o Dr. Fábio Dória do Amaral – e que, naquela época a Cirurgia Pediátrica “era invadida por todas as demais especialidades”. “Os residentes lutaram conosco para garantir nosso espaço e, após 50 anos, operamos a maioria das afecções cirúrgicas pediátricas.”

O Dr. Marcelo Iasi, que, como disse, “acompanha o Dr. Mastroti, que o inspirou a ser médico e cirurgião pediátrico, há 62 anos”, entregou a placa de homenagem ao mestre, em nome de todos os demais residentes.

Na breve solenidade de abertura, que antecedeu a homenagem, o Dr. Humberto Salgado Filho, chefe do Serviço de Cirurgia Pediátrica da Santa Casa, falou dos esforços empregados para a realização daquela jornada, do importante momento que passa a Cirurgia Pediátrica da Santa Casa e dos novos rumos da especialidade.

O Dr. Marco Aurélio P. Sáfadi, diretor do Departamento de Pediatria da instituição, deu as boas-vindas aos presentes e destacou a importância do evento, assim como o presidente da CIPE, Dr. João Vicente Bassols, para quem “momentos como esse são muito relevantes para a CIPE, uma vez que reaproximam amigos, colegas, ex-residentes”. Ele parabenizou a todos pela iniciativa e ao Dr. Humberto, por sua tenacidade.

Passado, presente e futuro

Ainda na programação da abertura, antes dos painéis científicos propriamente ditos, foi apresentada a trajetória da Cirurgia Pediátrica em São Paulo e no país, o contexto atual e perspectivas. O presidente da mesa foi o Dr. Élcio R. Baldacci, um dos primeiros residentes do Dr. Fábio Dória do Amaral.

Coube ao Dr. José Roberto Baratella abordar o nascimento e o desenvolvimento da especialidade, principalmente em São Paulo, a partir da Ortopedia Pediátrica. Nessa exposição, citou os pioneiros na cidade e os que posteriormente seguiram seus passos. Destacou que o primeiro trabalho científico da especialidade foi publicado na Santa Casa, em 1896, e também que o primeiro serviço de Ortopedia e Cirurgia Infantil do Brasil foi criado naquela instituição pelo Dr. Lauro Amorim. Nesse retrospecto, o Dr. Baratella também mencionou a criação da CIPE (1964), da primeira residência da especialidade (1965), a fundação da Cipesp (1970), a publicação do primeiro livro brasileiro sobre a especialidade (1972), de autoria do Dr. Primo Curti, e a criação da World Federation of Associations of Pediatric Surgeons – Wofaps (1974), entre outros dados importantes dessa história.

O Dr. Humberto abriu sua apresentação sobre o quadro atual da Cirurgia Pediátrica no Brasil, declarando haver várias possibilidades para a especialidade, que é hoje “a grande cirurgia da criança”. Segundo ele, o perfil demográfico do país está mudando e, com ele, o cenário e as perspectivas da Cirurgia Pediátrica. “Houve redução da fecundidade da mulher, da natalidade e da mortalidade infantil”, revelou. Citou alguns dados nacionais e pontuou aspectos que integram esse cenário, como o aumento de casos de atresia (355 casos novos por ano) e o fato de apenas 5,6% dos municípios brasileiros possuírem mais de 100 mil habitantes, o que inviabiliza a aquisição de equipamentos de alto custo – como os necessários em grande parte dos procedimentos cirúrgicos pediátricos, notadamente os neonatais – na maioria das localidades. O chefe do serviço na Santa Casa também se referiu a alterações no tempo de formação do cirurgião pediátrico, com o aumento de dois para três anos na residência de Cirurgia Geral.

Para o Dr. Humberto, “falta planejamento, modelo de ensino e de remuneração adequada pelos procedimentos, e uma organização que represente as duas vertentes da Cirurgia Pediátrica: a generalista e a especialista por área”. Ele ainda salientou a necessidade da instituição de um Título de Especialista pela Associação Brasileira de Medicina (AMB) também por área de atuação.

O futuro da Cirurgia Pediátrica foi o ponto desenvolvido pelo Dr. Renato Carrera nesse painel. Ele também se referiu às mudanças no perfil demográfico do país: “Cada vez nascem menos crianças, queda de 25% agora para 20% em 2030.” Acrescentou ainda que a média etária do cirurgião pediátrico é hoje elevada, de 51 anos, com 21 anos de experiência.

O Dr. Renato avaliou os novos elementos que compõem a equação na evolução da prática médica. Dentro desse contexto, comentou o desenvolvimento da terapia gênica, mudanças no tratamento cirúrgico oncológico – que contrapõe o método radical ao multimodal – e a redução dos casos de trauma, por meio da prevenção de acidentes. “Não há como avançar sem atualização e qualificação cotidianas, isso é fundamental”, declarou, citando a necessidade de melhorias nas técnicas cirúrgicas e o conhecimento de robótica, para que o mercado “não tire nossa fatia de mercado”

Painéis científicos

Após esse painel introdutório, a jornada enveredou pelo campo cirúrgico propriamente dito. Da programação fizeram parte conferências e mesas de debate sobre os seguintes temas: enterocolite, via biliar, avanços na nutrição de lactentes, Oncologia, Urologia, cólons, tórax, esôfago, parede abdominal, anomalias anorretais, hérnia diafragmática, trauma e urgência. A jornada foi finalizada com debates sobre as práticas em consultório e sobre pesquisa e carreira.