Associação Médica Brasileira World Federation of Associations of Pediatric Surgeons Asociación Iberoamericana de Cirugía Pediátrica

Medicina em áreas remotas, segundo a visão de uma cirurgiã pediátrica

Dra. Daniela Silvestre exibe o diploma da Universidade de Glasgow

Dra. Daniela Silvestre, cirurgiã pediátrica, aborda esse tema, no qual também é especialista, em entrevista exclusiva.

Há poucos meses, pessoas do mundo todo acompanharam o resgate do grupo de meninos presos em caverna inundada, na Tailândia, o qual envolveu 30 equipes médicas e uma centena de mergulhadores, entre locais e internacionais, especialistas em cavernas.

Tratar de resgate em áreas como essa pode parecer estranho a quem acesse este site, que é direcionado a Cirurgia Pediátrica. Mas essa sensação se desfaz na entrevista com a Dra. Daniela Silvestre, cirurgiã pediátrica e também médica especializada em atendimento em áreas remotas, diretora financeira da Associação Brasileira de Medicina de Áreas Remotas e Esportes de Aventura (Abmar). No último dia 6 de junho, ela, juntamente com outros 14 colegas de diversas partes do mundo, recebeu o Diploma em Medicina de Expedições em Áreas Remotas, na Universidade de Glasgow (Escócia). Essa foi a primeira turma a concluir esse curso de pós-graduação.

A Dra. Daniela conta que essa especialidade surgiu como conceito em meados da década de 80, quando um grupo de médicos americanos fundou a Wilderness Medical Society (WMS). Essa organização foi criada para estudar, pesquisar e, principalmente, para ensinar médicos e praticantes de atividades de aventura a “reconhecer potencias riscos à saúde e manejar os principais problemas médicos dos ambientes naturais, ou outdoor, onde o tratamento hospitalar e/ou definitivo encontra-se de algumas poucas horas a dias de distância, onde o acesso é muitas vezes difícil, em um ambiente extremo, com recursos limitados e um grande desafio à prática médica”.

 

Abrangência

Ela esclarece que não há um foco específico para essa especialidade médica: “Podemos dizer que existe interação importante com a Medicina do Esporte e a Medicina de Emergência, mas, de fato, a área de atuação é muito mais abrangente, envolvendo saúde global, medicina preventiva, humanitária, tropical, do viajante, de montanha e altitude, do mergulho e hiperbárica, aeroespacial e atuação em desastres naturais, para citar alguns campos”.

Ela acrescenta que os ambientes, atividades e grupos humanos a que se aplica são os mais variados. As atividades vão desde caminhadas em trilhas, cavernas, travessias, corridas de aventura, mergulho, rafting, vela, mountain bike, ski, até escalada em alta montanha e viagens espaciais e abrangem um grupo muito heterogêneo de participantes, de atletas e militares até pessoas com necessidades especiais, gestantes, idosos e crianças, com diferentes graus de condicionamento físico.

A médica destaca que nesses diferentes cenários podem surgir doenças de cunho endêmico, exacerbações de condições pré-existentes (e que poderiam ser evitadas mediante avaliação médica anterior à atividade) e doenças relacionadas ao ambiente e à atividade pretendida, como diarreia do viajante, traumas, doenças relacionadas ao calor, ao frio, à altitude, barotraumas, encontro com animais, insetos e plantas, por exemplo.

 

Tailândia e Brasil

Na sua avaliação, o que fez do resgate na caverna da Tailândia algo tão dramático foi justamente o fato de a caverna estar quase completamente alagada, o que raramente oferece chance do resgate das vítimas com vida, e pelo fato de não haver precedentes quanto ao mergulho com crianças e adolescentes nessas condições. “Foi uma operação muito arriscada e exaustivamente planejada pelas equipes que atuaram nesse resgate. Uma operação como essa geralmente começa com uma atividade de busca e resgate (SAR, sigla de Search and Rescue), e, a partir do encontro das vítimas, é montada uma força-tarefa com diferentes especialistas, que incluiu forças militares, bombeiros, mergulhadores, espeleólogos e médicos”.

A Dra. Daniela enfatiza que o mais importante em situações como essa é que tanto os profissionais médicos quanto os não médicos façam uma boa análise da segurança do local, ou seja, do acesso à cena, para que também não se transformem em vítimas: “Em um cenário que exija socorrer vítimas em áreas remotas, nunca podemos nos colocar em risco e, no caso de não haver preparo para esse tipo de situação, o recomendado é sempre buscar ajuda e acionar os serviços de emergência locais.”

Segundo ela, no Brasil, existem cerca de 250 espeleólogos voluntários, treinados para efetuar resgate em cavernas, organizados na Comissão de Espeleoresgate (CER) da Sociedade Brasileira de Espeleoresgate (SBE). “Nos últimos dez anos, o grupo brasileiro vem sendo treinado no Brasil e na França, que é a sede de uma das entidades mais respeitadas do mundo nesse tipo de operação, a Spéleo Secours Français (SSF)”. Esse treinamento abrange gestão, assistência e socorro à vítima, comunicação, exploração, evacuação e mergulho, entre outras técnicas.

Além dos mergulhadores especializados do CER/SBE, o Brasil ainda conta com dois coordenadores regionais da International Underwater Cave Rescue and Recovery (IUCRR), instituição voltada ao resgate em cavernas completamente alagadas. “Geralmente, em uma situação de desastre ou de necessidade de ajuda humanitária, as equipes de voluntários – neste caso específico, de espeleorresgatista – de diferentes países se mobilizam e permanecem à disposição. Mas precisam ser acionados pelo governo local para que possam atuar”, explica.

 

Cirurgia Pediátrica e Medicina em Áreas Remotas

A entrevistada revelou sempre ter sido uma pessoa com aptidão para a aventura. Porém, o desconhecimento sobre medicina de áreas remotas durante a formação médica tradicional, aliado à falta de tempo para outras atividades durante o processo de formação em Medicina e de especialização em Cirurgia Pediátrica, retardou seu interesse pela nova área. “Em 2013, depois de exatos 15 anos de formada, pesquisei meios de participar de um projeto médico voluntário em uma área remota e, por meio da Wilderness Medical Society (WMS), encontrei a ONG Himalayan Family Healthcare Project. Então, eu me inscrevi como médica voluntária do Nepal Medical Trek e fui a única sul-americana da expedição. Durante 10 dias, atendemos em vilas remotas do Nepal, levamos medicamentos, dentistas, e foi uma experiência transformadora. Como cirurgiã pediátrica atendi muitas crianças e usei algumas habilidades cirúrgicas para cuidar de pequenos ferimentos e até diagnosticar um caso cirúrgico de apendicite.”

Para a Dra. Daniela, a relação da Cirurgia Pediátrica com a Medicina de Áreas Remotas pode se dar por meio da medicina humanitária, como citado na experiência do Nepal, e, principalmente, pela crescente inserção da criança e do adolescente nas atividades de viagens e aventura. “As crianças têm peculiaridades anatômicas e fisiológicas que demandam especialização médica no tema”, declara.

Ela avalia que as habilidades em Cirurgia Pediátrica vão ao encontro da prática nessa outra área da medicina. “De maneira geral, as principais habilidades de um médico em áreas remotas é analisar a segurança da cena, não se colocar em risco, fazer a avaliação primária e secundária do paciente, uma boa anamnese e exame físico, manejar imobilizações, transporte, ter um bom plano de evacuação, praticar bem comunicação e dominar técnicas básicas de navegação. Na Cirurgia Pediátrica é preciso avaliar bem a indicação da cirurgia, colher informações precisas, ter realizado um bom exame físico, avaliar os riscos, fazer um bom planejamento antes da cirurgia e pensar no material necessário, pois algumas vezes os recursos são limitados e precisamos improvisar.” Ela acrescenta que habilidades manuais podem ajudar muito: “Nós nos deparamos com situações difíceis, em que não podemos nos desesperar; precisamos estar sempre bem treinados e atentos aos protocolos de atendimento, à sequência básica de prioridades. Ou seja, a boa prática médica deve estar presente em qualquer situação. Para isso é necessário qualificação e treinamento continuado.”

 

Formação e aventura

Assim, depois da expedição de 2013, ela retornou ao Nepal em 2015, como membro da WMS, para realizar curso de Medicina de Montanha e Altitude no trekking ao acampamento-base do Monte Everest. “Durante os 16 dias do trekking, foram discutidos temas como mal agudo de montanha, edema pulmonar de altitude, edema cerebral de altitude, fraturas, luxações e doenças infecciosas. Tivemos aulas práticas na clínica médica avançada em Pheriche (a 4.200m de altura) e montamos a tenda da clínica médica do campo-base do Everest (a 5.365m), que naquela temporada atenderia sherpas (ou xerpas, habitantes do alto Himalaia) e alpinistas, o qual seria quase totalmente destruído dias depois, pelo terremoto. Nesta mesma expedição, eu sofri um edema cerebral de altitude e fui levada de helicóptero para a capital Kathmandu. Mas esse fato não me fez desistir. Em 2016, subi o Monte Roraima (na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana), fiz uma expedição à Antártica e, em 2017, iniciei a pós-graduação em Medicina de Áreas Remotas, que concluí este ano.”

 

Em busca de reconhecimento oficial

Nesse curso do International Diploma in Expedition & Wilderness Medicine no Royal College of Psysichians and Surgeons of Glasgow, a Dra. Daniela teve como colega a presidente da Abmar, a Dra. Juliana Schlaad, que tem mestrado em Gastrenterologia e é pós-graduada em Nutrologia. O curso foi integrado por atividades teórico-práticas e trabalhos escritos de revisão e por quatro módulos presenciais, desenvolvidos na Escócia, na Inglaterra e no Marrocos.

Como no Brasil a especialidade ainda não foi formalizada oficialmente, esse curso internacional agregou peso considerável à formação de ambas nessa área. “O tema, como descrevi anteriormente, é muito amplo e ainda nos cabe muito estudo e aperfeiçoamento. Estamos trabalhando na Abmar para que a Medicina de Áreas Remotas possa ser reconhecida pela Associação Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM), em um futuro próximo, como especialidade médica no Brasil”, revela. Atualmente vários médicos ligados à instituição são instrutores do curso Advanced Wilderness Life Support (AWLS) no país, que capacita profissionais da saúde para o atendimento de primeiros socorros em áreas remotas e tem validação e certificação internacionais.

A Abmar surgiu em 2012, como uma ONG sem fins lucrativos, fundada por médicos que queriam aliar a profissão à paixão por atividades outdoor. A associação tem por objetivo fomentar o ensino e divulgar o conceito de Medicina de Áreas Remotas para médicos e estudantes de medicina. “Estamos trabalhando para transformá-la em especialidade médica”, declara. Desde 2013, a entidade oferece simpósios anuais, reuniões científicas mensais e cursos em módulos anuais para os residentes de Medicina do Esporte do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e da Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (Unifesp/EPM), além de oferecer descontos em cursos especializados, por meio de parcerias institucionais. Ainda nessa gestão, a Abmar, hoje com quase 60 associados, pretende lançar o primeiro livro brasileiro de Medicina de Áreas Remotas.

A Dra. Daniela Silvestre é médica concursada do estado de São Paulo e atua no Hospital Infantil Cândido Fontoura, na Zona Leste da capital paulista, sendo, ainda, coordenadora da residência médica de Cirurgia Pediátrica do Hospital Universitário São Francisco de Assis, em Bragança Paulista (SP).